|
As pessoas
passam então a aceitar os desafios como tarefas do grupo, dentro do qual
podem contar uns com os outros, tanto durante momentos confortáveis, quanto
em momentos de crise.
Nas
relações em que ocorre o surgimento da confiança, entram em cena os tipos de
personalidade com suas complementaridades, afinidades e divergências. É
nesse ponto que devemos conhecer um pouco sobre os tipos psicológicos e suas
inter-relações, para podermos direcionar melhor os esforços de uma equipe. É
extremamente mais complicado existir uma relação de confiança entre tipos
psicológicos não compatíveis entre si. Da mesma forma, entre tipos
compatíveis, as relações de confiança surgem naturalmente, fato este que
justifica a preocupação do líder em conhecer cada vez mais os aspectos e
perfis psicológicos dos membros da equipe.
Tipos de personalidades
O
comportamento humano não é trivial. Estamos falando de pessoas, de seres
complexos; de atitudes e pensamentos que geralmente não podem ser facilmente
traduzidos. Cada um demonstra em seu comportamento, suas experiências de
vida, seu modo particular de enxergar os fatos. E a conjugação das
habilidades diversas dos membros de um grupo, com o intuito de gerar uma
energia positiva e direcionada, é dificultada ou facilitada de acordo com as
preferências e sinergias entre os diversos tipos de personalidade.
O homem se
relaciona em comunidade desde que percebeu que as atividades executadas em
grupo obtinham resultados melhores do que as executadas individualmente. A
partir daí, se iniciam os problemas de convívio, causados pelas diferenças
de personalidade dos membros do grupo. A maioria de nós tem uma consciência
inata da existência de diversos tipos de personalidade e da dificuldade de
se conviver com essas diferenças, mas a idéia de buscar fora da pessoa os
elementos que explicassem seu comportamento obteve ênfase com as teorias de
Jean Jacques Rousseau (1712-1778), segundo o qual era a sociedade quem
corrompia o homem.
Existem
diversos métodos, desenvolvidos por profissionais da área de psicologia,
para identificar o perfil ou o tipo psicológico de cada pessoa. Porém
ninguém se aprofundou tanto na identificação das diferentes personalidades
quanto Carl Gustav Jung (1875-1961). Hoje os estudos feitos por Jung e
aperfeiçoados por outros pesquisadores são utilizados em organizações com o
objetivo de montar equipes de alto desempenho.
A avaliação
do tipo de personalidade, de acordo com Jung, primeiramente levará à
identificação das atitudes das pessoas como extrovertidas ou introvertidas.
De acordo com este método, após esta identificação, as pessoas destes dois
grandes grupos serão classificadas por perceber as informações externas
através da intuição ou da utilização de seus sentidos físicos. Acrescenta-se
também a avaliação de como a pessoa forma o julgamento dos fatos, que pode
ser através do pensamento ou do sentimento. Até aí, as combinações obtidas
já caracterizam oito tipos diferentes de personalidades.
O
Myers-Briggs Type Indicator (MBTI), que é um conjunto de avaliações
aplicadas para identificar os Tipos Psicológicos Jungianos, acrescenta um
novo par classificativo, que avalia a forma de condução da própria vida: o
indivíduo planeja e determina tudo o que faz de acordo com um plano
previamente estabelecido ou o indivíduo tem sua visão aberta a novas
possibilidades, flexível e passível de adaptação na medida em que os fatos
vão surgindo. Totalizam-se então 16 tipos diferentes de personalidades de
acordo com este método, que são a combinação dos quatro pares de
características mostradas. A análise de cada tipo e a interação entre eles
está descrita em literatura específica e não se configura objeto específico
deste artigo.
Esta é
somente uma das diversas maneiras de avaliar o perfil psicológico de uma
pessoa, e deve ser feita por profissionais qualificados. Porém, mesmo sem
utilizar um método científico, geralmente nos arriscamos a analisar as
pessoas, mesmo que instintivamente, e classificá-las. Fazemos isso avaliando
uma possível contratação, durante a composição de uma equipe ou na escolha
de um recurso para alocação em uma tarefa. Afinal, quem nunca pensou em
colocar aquela pessoa introspectiva da equipe sentada ao lado daquela que é
mais alegre e comunicativa, no sentido de acalmar um e eletrizar o outro? Ou
nunca pensou em deixar separados aqueles dois membros que são mais
extrovertidos, para que o restante da equipe tenha silêncio e tranquilidade
suficiente para trabalhar?
Complementaridades na equipe
Algumas
pesquisas (LESSA, 2002) demonstram que a maioria das pessoas tem afinidades
com outras que podem complementar seus pontos fracos, relacionados com suas
habilidades e características individuais de personalidade, porém poucas
pessoas têm afinidade com tipos psicológicos totalmente opostos ao seu.
Baseado
nisso, é relevante incentivar na equipe comportamentos que contribuam para o
surgimento ou para o aumento de afinidades entre os seus membros,
principalmente no que tange ao fortalecimento do comportamento ético dos
mesmos. Isso é o que impulsiona o surgimento das relações de confiança entre
os membros da equipe.
O princípio
da complementaridade entre os tipos psicológicos é descrito por Myers-Briggs,
demonstrando e classificando as relações entre o perfil do próprio indivíduo
e o perfil da pessoa com quem teria uma maior ou uma menor afinidade nas
atividades relativas ao trabalho.
Essas
pesquisas indicam que a afinidade e a complementaridade entre os tipos
psicológicos dos membros da equipe são requisitos muito desejáveis, porém
não chegam a ser requisitos essenciais. Ou seja, devem-se levar em
consideração os tipos psicológicos sim, porém nem sempre tipos não
compatíveis produzem relações caóticas no trabalho. Muitas vezes, com o
trabalho de uma liderança preocupada constantemente em melhorar as
afinidades entre os membros do grupo, as relações de confiança na entidade
GRUPO, podem suplantar as relações de confiança individuais, tornando o
trabalho fluido e natural.
Impactos no desempenho
A
observação da complementaridade entre os tipos psicológicos dos membros de
uma equipe pode influenciar positiva ou negativamente no seu desempenho.
Alguns fatores devem ser observados para o bom desenvolvimento da equipe:
-
Deve ser observada a atuação das pessoas para que, preferencialmente,
atuem em tarefas adequadas ao seu tipo psicológico.
-
A
equipe deve conter pessoas que saibam promover o autoconhecimento, para
que possam desenvolver todas as suas habilidades de maneira uniforme,
utilizando-as na solução de problemas na equipe e na manutenção do bom
relacionamento com os demais membros do grupo.
-
A
diversidade de estilos e de personalidades dentro de uma mesma equipe
deve existir para que os problemas possam ser analisados sob diversos
ângulos e para facilitar a complementaridade entre os membros.
-
A
equipe necessita de pessoas motivadas e comprometidas com as
necessidades dos clientes e com os resultados a serem atingidos. Elas
precisam considerar que as atividades por elas desempenhadas são
importantes e valem a pena ser realizadas.
-
Os membros da equipe devem conhecer as metas da empresa e da equipe e
zelar por seu cumprimento.
-
A
equipe deve estar motivada a zelar pela integridade dela mesma, como
grupo, e preocupada em desenvolver os laços de afinidade que mantêm o
comprometimento entre os membros.
O papel do líder no crescimento da equipe
A relação
entre o líder e os membros do grupo é fator determinante para a facilitação
ou para a obstrução da obtenção dos resultados desejados. Baseado nisso, em
primeiro lugar, o líder deve sempre escolher sua própria equipe, as pessoas
que trabalharão com ele. A relação de confiança mútua se inicia neste ponto.
O líder é o
responsável por manter a balança de humores, desejos e frustrações
equilibrada. É ele quem observa e controla todas as linhas de comunicação
entre a equipe e faz os ajustes de curso necessários ao bom funcionamento do
todo.
O líder não
deve de modo algum privilegiar qualquer membro da equipe em função de
preferências pessoais ou afetivas. Deve ser sempre destacado que o fracasso
ou o sucesso individual representa o do grupo. A promoção de talentos
individuais para a posição de "gênios intocáveis" torna o grupo reativo,
tanto ao membro privilegiado quanto ao líder, e ainda compromete a confiança
entre os membros da equipe. Podemos nos embasar na frase de Thomas Edison:
"Um gênio é uma pessoa de talento que faz toda a lição de casa", dizendo que
se uma pessoa está se destacando mais do que os outros, cabe ao líder
utilizá-la como um facilitador para o progresso de todos os membros da
equipe.
A liderança
entre os membros da equipe deve ser incentivada, para que todos tenham
condições de assumir, em determinados momentos, a liderança em algum nível
dentro da equipe. Para que todos também, sejam capazes de representar a
equipe de maneira clara e objetiva, caso seja necessário.
Os líderes
devem, dentro dos limites possíveis, fazer conhecer pela equipe os problemas
do dia-a-dia, e fazer com que a equipe participe da solução dos mesmos. A
clareza, neste ponto, facilita a confiança entre equipe e liderança, e essa
relação é essencial para a existência de um alto grau de cumplicidade. Essa
cumplicidade faz com que o líder seja seguido e apoiado, pois os membros da
equipe têm a certeza da contrapartida desse apoio, quando necessário. Devem
sempre tentar conseguir o comprometimento sincero dos membros da equipe, em
relação aos objetivos e metas individuais, da equipe e da organização.
O líder
deve reconhecer na equipe o perfil e as facilidades de cada um no desempenho
de determinadas tarefas. Deve, na medida do possível, saber escolher o tipo
de tarefa mais adequado para cada membro da equipe. Deve ainda reconhecer os
fatores de complementaridade entre os membros e fazer suprir as dificuldades
de um membro através das vantagens de outro membro da equipe.
Deve
desenvolver continuamente as pessoas, mantendo um nível elevado em relação a
habilidades e conhecimentos, através da transmissão de informações e
habilidades, e incentivando a mudanças de atitudes. Preparar a equipe para a
inovação e para enfrentar desafios de tarefas cada vez mais diferentes e
complexas. Os objetivos a serem alcançados também podem e devem ser revistos
e conduzidos de modo a obter cada vez mais eficiência aliada à satisfação.
A motivação
das pessoas deve ser feita em relação e por meio da própria tarefa. Assim se
eleva a auto-estima e o sentimento de realização de cada membro da equipe. A
motivação está contida dentro de cada indivíduo, porém pode ser
influenciada. O líder deve conhecer o potencial de motivação de cada um da
equipe e saber extrair do próprio trabalho as condições para elevá-la.
O
planejamento do trabalho deve ser meticuloso, para assegurar um desempenho
da equipe em sintonia com as capacidades individuais de seus membros. Por
outro lado, o planejamento também deve ser continuamente revisto e
atualizado, para manutenção da satisfação profissional.
O ritmo
diário de trabalho e a distribuição de tarefas deve também levar em
consideração fatores externos atuais como situação econômica, social,
emocional e familiar. Estes fatores são extremamente mutáveis e influenciam
diretamente as relações no âmbito da equipe. Não que as decisões
profissionais devam ser pautadas nos ânimos da equipe, porém, conhecendo-se
previamente os problemas pessoais de cada membro, situações de conflito
podem ser minimizadas ou mesmo evitadas, sem prejuízo do trabalho do grupo.
Conclusão
A busca da
complementaridade é inerente a qualquer grupo que deseja se inter-relacionar
de forma proveitosa. Faz parte de um conjunto latente de instintos e
aprendizados herdados dos primórdios do relacionamento em grupo e que faz
parte do chamado Inconsciente Coletivo. Sempre procuramos nos
relacionar com pessoas que tenham sintonia com algum aspecto de nossa
personalidade. Também procuramos, mesmo que instintivamente, pessoas que
tenham qualidades que não temos, ou em que somos deficientes. Este é o
princípio da complementaridade. Inconscientemente nos direcionamos para este
equilíbrio.
Em
determinadas situações, algumas pessoas reagem tentando se integrar ao
grupo, outras reagem se afastando ou mesmo se desligando do grupo, quando
existe uma situação de conflito. Cabe ao líder identificar as pessoas do
grupo com maior dificuldade na busca da complementaridade e na integração
com os outros membros do grupo e utilizar técnicas de motivação, integração,
para que este membro também se beneficie das vantagens do grupo.
Para o
líder, é um processo constante de observação, monitoração e educação
permanente, onde são propostas mudanças comportamentais, pessoais,
sentimentais e de percepção, na busca de um progresso constante do grupo e
de seus membros.
Transformar
as divergências do dia-a-dia em oportunidades para o crescimento conjunto e
para a modificação de atitudes do grupo como um todo, é um dos maiores
desafios de um líder. E participar deste crescimento como parte integrante
do grupo é uma das maiores satisfações que pode ter um líder. É extremamente
gratificante perceber dia após dia o crescimento e o desenvolvimento de sua
equipe.
Finalmente,
quem acredita que o grupo é um somatório de competências individuais está
incorrendo em um erro gravíssimo. O grupo tem uma personalidade e
competência própria e única, resultado da interação constante entre os
indivíduos e que, na maioria dos casos, sobrepõe as personalidades e
competências individuais. O grupo, em si mesmo, é uma unidade viva e
independente, com características e comportamentos próprios, e deve ser
enxergado desta forma por quem desejar liderar seu crescimento.
______________________________________________________________________
Fontes:
Chiavenato, Idalberto -
Gerenciando com as pessoas - 2005, Moscovici, Fela - Equipes que dão certo -
2004, Lessa, Elvina Maciel - Equipes de alto desempenho - 2003, Ballone GJ -
Personalidade, in. psiqweb, internet – 2003.
Copyright© 2009
Sergio Laranja Sá Corrêa, PMP
______________________________________________________________________
Se você também
deseja participar desta seção, envie e-mail para
artigos@tenstep.com.br
Teremos o maior prazer em publicar seu artigo. |